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Segunda-feira, Junho 01, 2009

O �outro tempo� em Goi�s

�Lereia deu a Alcides a oportunidade de assinar a alforria ao seu jeito, sem estardalha�o. Marconi continuar� a conviver com a desconstru��o de sua imagem.�


Janeiro de 2007. O governo de Alcides Rodrigues anuncia plano de contingenciamento de gastos, alegando desequil�brio entre receita e despesas. Esse fato marca a passagem da era de um Estado com as �finan�as est�veis� para a era de um Estado com �dificuldades para pagar suas contas�.

Mar�o de 2007. Alcides convence o presidente Luiz In�cio Lula da Silva a remarcar uma visita a Goi�s, j� cancelada pelo Pal�cio do Planalto. No dia 22, Lula visita An�polis, Mineiros e Inhumas e passa mais de 12 horas no Estado, a �ltima delas em reuni�o com partidos de sua base aliada, incluindo o PP. Ao final da visita, o governador declarou: �O encontro superou as rela��es institucionais�. Esse fato marca o come�o do desmanche de um grupo e o in�cio de uma nova configura��o pol�tica.

Os dois gestos desencadeados no in�cio deste governo marcam o come�o da reda��o desse roteiro pol�tico, que ganha desfecho agora e tem v�rios ingredientes, todos visando sustentar aqueles dois eixos centrais, a desconstru��o da imagem de Marconi e a constru��o dessa nova configura��o pol�tica.

Desde que anunciou o contingenciamento de gastos, em 2007, o governo foi, aos poucos, refor�ando a informa��o de d�ficit entre receita e despesa, que os planos de cargos e sal�rios concedidos no final do governo tucano levaram a folha a consumir �93% da receita do Estado�, e que a Celg vivia uma de suas mais profundas crises, com uma d�vida de R$ 5,7 bilh�es.

Paralelamente, Alcides construiu uma rela��o com Lula, refor�ou o caixa do Estado com a ajuda da Uni�o, e se aproximou de outros interlocutores que eram ou advers�rios do bloco tucano ou estavam estremecidos com o senador, casos dos deputados federais Ronaldo Caiado (DEM), Rubens Otoni (PT) e Sandro Mabel (PR). E aproximou-se ainda do PMDB.

Esses passos foram dados com a paci�ncia t�pica do governador. O PSDB reagiu com declara��es diplom�ticas, pois seu prop�sito era manter o chamado �tempo novo�, cuja perman�ncia torna-se fundamental para sustenta��o da nova candidatura a governador de Marconi em 2010.

O deputado federal Carlos Alberto Lereia (PSDB) sempre foi o mais pol�mico dos tucanos. Em fevereiro de 2008, ele soltou a voz reprimida de v�rios colegas ao declarar: �A nossa base no interior est� mais perdida do que cego em tiroteio por falta de uma defini��o do governo, de um rumo para o Estado�. Os diplomatas entraram em a��o e o PSDB aquietou-se.

A visita do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a Goi�nia, no fim de semana anterior, somada �s �ltimas declara��es do secret�rio da Fazenda, Jorcelino Braga � ele disse que a Celg descumpriu no governo passado os 11 acordos com a Eletrobr�s, dificultando a renegocia��o da quebrada empresa �, reduziram o que restava de paci�ncia dos tucanos. Lereia deu vaz�o ao sentimento que os angustiava na barulhenta entrevista � CBN Goi�nia, quando fez acusa��es ao secret�rio da Fazenda e afirmou que o governador � traidor e �n�o tem car�ter�.

Palavras duras que fizeram tremer o mundo pol�tico e animaram os tucanos a ensaiar uma atitude extrema. Boa parte da bancada na Assembleia Legislativa chegou a articular a forma��o de um bloco de oposi��o. O governo tamb�m reagiu. Braga respondeu a Lereia no mesmo tom � disse que cachorro vira-lata s� late a mando do dono. Alcides chamou o PMDB para conversar, para pedir apoio na Assembleia.

O fogo inicial dos tucanos diminuiu no fim da semana passada. A bancada estadual desistiu de romper, pois a maioria dos deputados precisa do governo para garantir a pr�pria sobreviv�ncia em 2010. N�o quer brigar, o que levou o partido a anunciar, na quinta-feira, que s� romperia caso o governador anunciasse o rompimento. S� que Alcides n�o quer assumir o �nus dessa decis�o.

O governo ter� candidato em 2010. A prefer�ncia recai em Meirelles, que j� deu sinais de que pode aceitar a empreitada. No fim de semana que passou em Goi�s, Meirelles posou para fotos com chap�u na Festa da Pecu�ria e recebeu pol�ticos e jornalistas para conversar. N�o deixou d�vidas de seu interesse na articula��o de uma chapa com PP, PR, PT, PMDB e quem mais quiser. O apoio de Alcides a Marconi n�o vir�, ainda mais agora que ele foi acusado de falta de car�ter por um dos tucanos mais fi�is a Marconi. Caso a op��o Meirelles n�o se viabilize, o governador vai articular alternativa eleitoral para continuar a oferecer perspectiva de poder a seus aliados e evitar a dispers�o.

A pol�mica entrevista de Lereia pode n�o ter ajudado Marconi como era a inten��o. Ela acirrou os �nimos e conseguiu apenas explicitar que o racha s� n�o se formalizou por n�o ser conveniente a ningu�m. Alcides busca governabilidade na Assembleia e para isso precisa dos deputados tucanos e estes precisam do governo.

O epis�dio Lereia deu a oportunidade ao governador de assinar sua declara��o de alforria, ao seu jeito, sem estardalha�o. A estrat�gia dos tucanos de colar no governador a marca de traidor pode at� surtir efeito, mas isso poder� ter pouco efeito pr�tico, j� que Alcides n�o d� sinais de que pretende disputar as elei��es. No p�s-Lereia, Marconi continuar� a conviver com as cr�ticas a suas gest�es e com a desconstru��o de sua imagem, agora com um governador explicitamente advers�rio e trabalhando para construir um �outro tempo�, segundo suas palavras na quarta-feira. E Marconi lutar� para manter sua imagem de bom gestor. Em Corumba�ba, sexta-feira, o senador disse que n�o �duvidada� que Alcides faria um bom governo. Detalhe, o verbo est� no passado. O PSDB, portanto, vai resistir.
Cileide Silva

 

 

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